A obter dados...
O Forno de Nossa Senhora da Guia, no Avelar, ergue-se num plano elevado, no topo de uma ampla escadaria, dominando o antigo terreiro fronteiro — atual Praça Costa Rego. Trata-se de um elemento arquitetónico marcante, cuja descrição oficial, segundo a entidade Património Cultural I.P., destaca a sua planta hexagonal, fachadas rebocadas e pintadas de branco, cobertura em cúpula rematada por cruz latina e presença de pináculos decorativos. O portal principal, em arco de volta perfeita, é protegido por portadas, e o conjunto assenta numa estrutura de paredes portantes.
O forno encontra-se implantado sobre uma plataforma cercada por correntes de ferro, com acesso por uma escadaria de 16 degraus, rodeada por espaço ajardinado. Em redor, surgem edifícios de interesse arquitetónico; em frente, localizam-se a igreja paroquial e o jardim público, enquanto do outro lado da via se encontra uma fonte de espaldar. O forno assume hoje um papel cultural e simbólico como marco histórico.
Apesar de, por vezes, designado como “forno medieval”, a sua construção deverá datar do início do século XVIII, sendo provavelmente contemporânea do surgimento das festividades em honra de Nossa Senhora da Guia, cujo início é apontado para 1712.
A designação como estrutura medieval poderá refletir a existência anterior de um forno comunitário no mesmo local ou nas proximidades, hipótese plausível tendo em conta possíveis usos comunitários antigos nas imediações da respetiva área de implantação.
O monumento não possui classificação nacional, carecendo de proteção específica, embora se espere que tenha reconhecimento a nível municipal. Ao longo do tempo, foi alvo de várias intervenções de conservação — nomeadamente nos anos da década de 1970, em 2005 e em 2019 —, as quais, embora tenham garantido a sua preservação, alteraram algumas das suas características originais.
A sua construção estará intimamente ligada à romaria da Senhora da Guia, que ganhou grande expressão ao longo do século XVIII. A localização elevada e a imponência da escadaria sugerem uma função não apenas utilitária, mas também cénica e ritual. Durante as festividades, o forno desempenhava um papel central num ritual considerado milagroso: aquando da procissão, uma pessoa, transportando um cravo do andor da Senhora da Guia, introduzia-se no interior do forno — previamente aquecido durante longo tempo — para colocar o bolo a cozer, sem sofrer queimaduras. Este ato era interpretado como sinal de proteção divina. No dia seguinte, o bolo era repartido pelos romeiros, que o levavam consigo como objeto sagrado, para uso em momentos de necessidade.
A referência documental conhecida mais antiga ao forno data de 1787, num registo de batismo que menciona uma criança nascida “ao pé do forno da Senhora da Guia”.
Nos anos da década de 1920, terá ocorrido a proibição episcopal do chamado “milagre do forno”. A persistência da romaria, apesar dessa interdição, sugere que o núcleo devocional era suficientemente robusto para sobreviver à eliminação de um dos seus episódios mais vistosos, o que reforça a ideia de que a festa não se centrava num único ritual, outrossim num conjunto de práticas (peregrinação, culto, procissão, adoração, convívio) que sustentavam a continuidade.
O “forno” do Avelar não era um caso isolado, mas parte de um complexo regional de tradições votivas. O paralelo com a região de Pombal, designadamente a tradição em Abiúl, insere estas festas no universo do bodo, entendido como celebração comunitária de superação.
Neste sentido, a romaria do Avelar deve ser lida como algo mais do que “uma festa”: era um instrumento de coesão e um dispositivo de memória. Ao juntar milhares de pessoas, a romaria foi, durante séculos, uma força estruturante da vida local: moldou o espaço, mobilizou recursos, justificou obras e consolidou uma identidade comunitária que ultrapassava a própria freguesia.
O Forno, com as suas características, enquadramento e estilo únicos, distinto de todos os demais, é um símbolo maior do povo avelarense, da sua identidade, cultura e memória coletiva, figurando amiúde na iconografia local.
Livro: Os Antigos Avelarenses e sua parentela vicinal. Raul Manuel Coelho. 2025.
Fotografia: Forno da Senhora da Guia do Avelar. Raul Manuel Coelho. 2026.
Última atualização: 09-05-2026
Morada: Rua Padre Rosa n.º 287
Código Postal: 3240 - 318
Localidade: Avelar
Localização (Lat., Lon.): 39.923789, -8.356757